Compromisso ecológico - parte 3


“Que generoso sois, Senhor,
com todos os que vos procuram.
Saís a nosso encontro
nas maravilhas com que adornastes
toda a criação.
Com que prazer vos deixais 
buscar em vossos vestígios
que são as criaturas” 
(St. Afonso - O trato familiar com Deus)




Se faz cada vez mais necessário retomar uma relação de contemplação com a natureza, como nos ensina os salmos, de uma admiração profunda pelas obras do criador, que são capazes de revelar o amor e a bondade dEle. Sem essa relação de contemplação e de admiração, agiremos como dominadores, consumistas e mero exploradores dos recursos naturais. Contemplar o mundo como revelação de Deus, tendo a nós mesmos como parte intimamente ligada a essa revelação, vai nos ajudar a renunciar a tendência de fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio (cf. LS 11).
O ser humano não é um ser que está sobre a terra, como se ele fosse inquilino, um passageiro vindo de outros lugares e que vai embora. Ele é feito de húmus, donde vem a palavra homem, ele é Adam (que em hebraico significa o filho da Terra), mais ainda, ele é a própria Terra que, em um momento avançado de sua evolução, começou a sentir, a pensar, a amar. Se tivermos a visão de um astronauta que pode olhar a terra de fora, veremos que os humanos e o planeta são uma só coisa, não se distinguem. A Cosmologia vai ainda além, não só o ser humano e o planeta são um só, mas todo o universo. Tal ligação faz com que tudo e todos sejam um nó de relações. “Esse caráter relacional é transversal a todos os seres, de forma que os físicos quânticos puderam formular a tese de que ‘tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em todos os momentos’. O universo, mais do que soma de todos os seres existentes, é o conjunto de todas as relações e das redes de relações com as informações que carregam consigo. Tudo é relação e nada pode existir fora da relação”. Tal experiência de comunhão radical com nosso universo, com o nosso planeta precisa ser feita, para que se recupere as raízes e se alimente a própria identidade.

Orar a partir da natureza com Santo Afonso

Quando vires os rios correrem para o mar sem se deterem, pensa que assim deves correr tu para Deus, teu único bem. 

Quando ouvires o canto dos pássaros, dize para teu coração: - Ouve como estes animaizinhos louvam ao Senhor! E eu? Louva-o com atos de amor. 

Quando vires os vales fertilizados pelas águas que descem das montanhas, pensa que, do mesmo modo, descem do céu as graças sobre os corações humildes…

Quando teu olhar descansar sobre o mar, pensa na imensidade e na grandeza de Deus…

Quando contemplares a campina, as flores e os frutos que te alegram com sua beleza e perfume, exclama: Quantas maravilhas Deus criou para mim nesta terra para convidar-me a amá-lo, e quantas delícias me reserva no paraíso!

Quando contemplares o céu estrelado, pensa: Um dia terei a felicidade de caminhar sobre essas estrelas…

Quando vires a felicidade que demonstra um cachorrinho, agradecido pelo carinho e o alimento que seu dono lhe dá, pensa  que tu  deves maior felicidade ao Senhor que te criou, te conserva a vida e te cumula de dons.

Referência: 
BOFF, Leonardo. Cuidar da terra, proteger a vida: Como evitar o fim do mundo. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Papa Francisco. Laudato Si - Louvado sejas (LS): sobre o cuidado da casa comum, Paulus: São Paulo, Loyola: São Paulo, 2015.


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