Nosso Deus é um Deus ferido


O caminho para o conhecimento de Deus está oculto na fraqueza, na humilhação e na impotência do crucificado. O encontro com Deus ocorre naquele lugar que nós não achamos possível, pois Ele está perto de nós e em nós, naturalmente e em forma simples, não no brilho da glória, mas na humilhação, na mansidão; de forma que poderíamos acreditar que não é Ele, mas é verdadeiramente Ele. É preciso deixar-se encontrar com o Deus que se revela na cruz, pois é por meio de suas feridas que O encontramos. Nosso Deus é um Deus ferido. Se não vemos as feridas, é provável que se trate de uma ilusão, de uma projeção dos nossos desejos. Nosso Deus se revela para nós apresentando as cicatrizes dos pregos. (Cf. Jo 20,20-27).
Cristo vem até nós e não esconde suas feridas, antes as mostra querendo encorajar-nos a despirmos das nossas armaduras, máscaras e maquiagens; a contemplarmos as feridas e as cicatrizes que escondemos dos outros e de nós mesmos debaixo das camadas de proteção e também a olharmos para as feridas que causamos nos outros. As feridas de Cristo retiram a ilusão dos nossos olhos.
Existem religiões que ensinam a fugir da tristeza e do sofrimento “por meio do desligamento” do eu, já o cristianismo nos incentiva a pregar o nosso ego à cruz da solidariedade até o derramamento do sangue e da água do próprio coração. E ainda nos ensina a ver as feridas do mundo e a permitir que elas nos firam sempre de novo; a não fazer da oração uma fuga, mas a fazer que da oração surja um amor prático e uma ajuda concreta ao próximo. A ação que surge da oração é a não violência, ação que se recusa a jogar “com as cartas distribuídas pelo mal” e que traz para o nosso mundo uma qualidade verdadeiramente nova.
Jesus Cristo, por meio do mistério da encarnação está presente na humanidade de qualquer pessoa. Nos maus, Ele está “preso”, pois eles não lhe oferecem a liberdade, já que não permitem que Ele reine em seus corações e em sua conduta. Também pelo mistério da encarnação de Cristo, todas as feridas nossas e de nossos irmãos e irmãs são as feridas de Cristo, e se, como Tomé, nós a tocarmos, estaremos tocando no próprio Cristo.
As feridas do mundo precisam ser tocadas, mas elas também precisam nos tocar, precisam ferir a nossa consciência e nos inquietar, nos tirar das nossas indiferenças para entrarmos em intercessão, oferecendo essas feridas para Deus.
Diante das feridas precisamos ter compaixão, como Verônica teve compaixão de Jesus. A face dEle não pode ficar gravada nos corações endurecidos, mas nos corações dos misericordiosos que reconhecem o rosto de Cristo nos feridos deste mundo.

Pe. Fagner Dalbem Mapa, C.Ss.R.
Missionário Redentorista


Bibliografia:
Tomás Halík - Toque as feridas: Sobre sofrimento, confiança e a arte da transformação. Petrópolis: Vozes,2016.

Postagens mais visitadas deste blog

Santidade é Amar

Imagens que nos ajudam

Recomece

Onde está a nossa alegria?

O Ensinamento de Jesus

Café Vocacional - Entrevista com o Ir. Pedro, C.Ss.R.

Café Vocacional com Sandra Hansen

Igreja - Testemunha do Ressuscitado

Em comunidade, perseverantes na missão

Tocar as feridas