Tocar as feridas


É curioso o fato de que Tomé somente se livrou de suas dúvidas quando teve o contato com as feridas de Cristo. Talvez a nossa fé só alcance a maturidade quando subir o íngreme "caminho da cruz", quando passar pela porta estreita das feridas de Cristo. Só poderemos acreditar em Cristo - poder clamar "meu Senhor e meu Deus", como Tomé,  quando tocarmos as feridas de Jesus, das quais existem tantas no nosso mundo, pois Jesus se identifica com todos os pequenos e doentes. Todas as feridas dolorosas, todo o sofrimento do mundo e da humanidade são "as feridas de Cristo".
Nenhum de nós pode se considerar capaz de curar todas as feridas do mundo, nem mesmo o próprio Jesus fez isso durante seu ministério na Terra. Mesmo assim não podemos fugir e voltar as costas para elas: precisamos, no mínimo, vê-las, tocá-las e permitir que ela nos comova. Se eu permanecer indiferente, insensível, ileso diante das feridas de Cristo, como poderia confessar: “meu Senhor e meu Deus”? O Papa Francisco aconselhou uma vez: “nós dizemos que Jesus desceu aos infernos, e eu os aconselho a não terem medo de descer aos infernos das pessoas... é preciso descer aos infernos, é preciso descer lá, tocar as chagas. E, tocando as chagas das pessoas, você toca as chagas de Cristo”.
Quando olhamos a dor no mundo, não podemos nos limitar exclusivamente aos "problemas sociais", existem ainda muitas outras dores ocultas no interior dos seres humanos ao nosso redor. Tampouco devemos ignorar as feridas não curadas dentro de nós mesmos: quando admitimos sua existência e buscamos sua cura, também contribuímos para a "cura do mundo”. Isso é até uma precondição para perceber com a sensibilidade necessária a dor do outro e lhe dar a ajuda.
Jesus se aproxima de Tomé e lhe mostra suas feridas, como que lhe convidando: "Veja, o sofrimento não foi simplesmente apagado e esquecido. As feridas permanecem”. Aquele que "suportou as doenças de todos nós" atravessou em obediência também a porta do inferno e da morte, e Ele continua incompreensivelmente aqui entre nós. Com isso, Ele nos mostrou: "O amor tudo suporta", águas torrenciais não conseguirão apagar o amor, nem rios poderão afogá-lo”, "porque é forte o amor como a morte" e até mais forte do que ela. O amor se apresenta como valor que não é sentimentalismo; o amor é uma força, a única força capaz de sobreviver à morte e de abrir as portas com suas mãos transpassadas. Não podemos nem devemos perder a esperança diante do sofrimento. Quando confrontados com o mal, não podemos ceder-lhe a última palavra. Não devemos ter medo de "acreditar no amor", nem mesmo quando, segundo todos os critérios do mundo, ele estiver perdendo. Tenhamos a coragem de responder à "sabedoria deste mundo" com a loucura da cruz!
            Jesus, ao ascender a fé de Tomé pelo toque das feridas, quis lhe dizer que lá, onde tocamos o sofrimento humano, e talvez apenas lá! - reconheceremos que Jesus está vivo, que Ele é Deus e que O encontraremos em todos os lugares em que as pessoas sofrem. Não tenhamos medo! Não sejamos incrédulos! Pois Deus, o Senhor da Antiga Aliança, apareceu a Moisés na sarça ardente e seu Filho unigênito, nosso Senhor e Deus, manifesta-se no fogo do sofrimento, na cruz. Ouviremos sua voz apenas se tomarmos também sobre nós a nossa cruz e estivermos dispostos a suportar também o fardo dos outros; ouviremos sua voz apenas se reconhecermos nas cicatrizes do mundo um convite.


Texto adaptado do livro de Tomás Halík - Toque as feridas: Sobre sofrimento, confiança e a arte da transformação. Petrópolis: Vozes,2016.

Postagens mais visitadas deste blog

Café Vocacional - Entrevista com o Ir. Pedro, C.Ss.R.

Em comunidade, perseverantes na missão

O coração que arde com a Palavra

Café Vocacional com Sandra Hansen

Onde está a nossa alegria?

Sede perfeitos como vosso pai celeste é perfeito

Recomece

Imagens que nos ajudam

Vocação ao amor