Unir-se ao grito


        Jesus, quando grita para o Pai o seu sentimento de abandono: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes”, na verdade está impulsionado pelo próprio Pai para denunciar a situação de injustiça. Jesus traz, no seu grito, o clamor de todo o povo por libertação e Deus sempre intervém com a vitória para todos os que O buscam e confiam nEle, Ele dá a glória da ressurreição para todos aqueles que clamam junto com Jesus na cruz. “Na cruz, Ele exerce um ministério de representação do povo humilhado; é a encarnação do povo oprimido e rejeitado pelos que deveriam ter a missão de salvá-Lo”.
O clamor de Jesus revela algo muito importante na vida do Cristão. O grito do povo oprimido não é um simples grito, é um grito de quem confia em Deus, de quem reconhece o Senhor como defensor e guardião da justiça. Para o teólogo Comblin, o clamor do povo tem grande força porque é Deus mesmo que está por detrás desse grito. “Na realidade, o povo rompeu nesse grande clamor, porque o Espírito de Deus suscitou nele a consciência de sua situação, situação de injustiça, inspirando-lhe confiança na vontade libertadora de Deus”. Quando há injustiça, o Senhor suscita o grito do seu povo para intervir.
Durante seu ministério, Jesus mostrou aos discípulos a triste realidade do povo sem pastor, das ovelhas dispersas e sem rumo (cf. Mt 9,36), pois os pastores só cuidavam dos seus interesses e não se interessavam pelas ovelhas. Jesus quis fazer dos seus discípulos verdadeiros pastores.
Somos nós, cristãos, servos do Senhor, que devemos ter a iniciativa para a libertação. Somos nós os responsáveis por retirar o povo da pobreza, do sofrimento, da opressão e da exploração. O papa Francisco, na sua visita ao Paraguai, disse que “nossa fé deve ser solidária” e que não adianta rezar se não estivermos preocupados com a situação dos irmãos que sofrem. Nossa fé não é para alcançarmos um bem-estar subjetivo e camufladamente egoísta, enquanto o resto que se vire. É preciso ter a consciência de que ninguém pode viver se o “outro” não puder viver. Ser pleno só é possível se o outro é pleno também.
A maioria da população se vê privada de direitos econômicos e sociais chegando até a perder o direito à vida. Tudo isso por causa do nosso sistema econômico que é um verdadeiro “salve-se quem puder”, desenvolvido pelo processo de acumulação de capital. Vivemos em uma constante competição.
Nós, cristãos, só seremos autênticos quando começarmos a ir à contramão desse sistema excludente e explorador. Isso significa entrar numa verdadeira guerra contra um inimigo poderoso. Por isso que Jesus diz: “Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas sim a espada” (Mt 10,34). Essa espada não significa uma arma violenta, mas sim a luta pela justiça, a luta pelo direito dos mais fracos, significa se incomodar com a realidade que explora e sair do comodismo para tomar uma atitude libertadora. É preciso escutar o grito do povo e unir-se a ele.

Pe. Fagner Dalbem Mapa, CSs.R.

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