O Principal é a Vida


Jesus contou uma parábola interessante sobre um fariseu e um cobrador de impostos que sobem para orar. O fariseu reza de pé, seguro, a sua consciência não o acusa de nada, pois cumpre fielmente a lei, por isso dá graças a Deus, pois quem poderia se considerar um santo senão ele? Quanto ao cobrador de impostos, pelo contrário, retira-se para um canto e nem se atreve a elevar os olhos. Sabe que é pecador e sabe também que não pode mudar de vida. Não pode deixar o seu trabalho e nem devolver o que roubou. Por isso nada promete. Só se pode abandonar à misericórdia de Deus: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador”. Ninguém quer estar no seu lugar, pois Deus não aprova sua conduta. Mas inesperadamente, Jesus conclui a parábola com a seguinte afirmação: “Eu vos declaro: este último voltou para casa justificado e o outro não”. Jesus causa surpresa a todos, pois abre um mundo novo, que rompe todos os esquemas de religião. Deus concede a sua benção a um pecador que se abandona à sua misericórdia. A última palavra  não é da lei, que julga a nossa vida, mas da compaixão de Deus que escuta a nossa invocação.
            Jesus introduz nesta sociedade uma alternativa que tudo transforma. Jesus grita: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (cf. Lc 6,36; Mt 5,48). É a compaixão de Deus o princípio que deve reger a vida humana. Se formos misericordiosos, seremos santos, pois agiremos como Deus. Deus é santo e é grande porque não exclui ninguém da sua compaixão. Deus faz nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos” (cf. Mt 5,45) Para Jesus, a compaixão é a única maneira de imitar Deus. A compaixão não é um mero sentimento, mas um estilo de vida. Consiste em viver atentos ao sofrimento dos outros, fazendo com que o sofrimento dos nossos irmãos e das nossas irmãs doa também em nós e com que possamos reagir para eliminar ou pelo menos aliviar, socorrendo estes irmãos sofredores.
Essa posição também está clara na parábola do bom samaritano, que revela que Jesus olha para a vida a partir dos olhos das vítimas necessitadas de ajuda, pois a única maneira de sermos semelhantes a Deus é agirmos como aquele samaritano, que cuidou daquele desconhecido que encontrou debilitado no caminho. O decisivo é a compaixão que pretende ajudar o outro quando está necessitado. O verdadeiro progresso, a salvação da humanidade, está em atender aos sofredores do mundo, em vivermos a compaixão. E a perdição está na indiferença perante o sofrimento.
            A recordação que Jesus deixou gravada nos seus seguidores foi a de um profeta curador dedicado a aliviar o sofrimento. O programa de Jesus foi o de curar a vida. O principal para Jesus é a vida sã das pessoas. Não podemos, como os fariseus, desvincular Deus da vida feliz do povo para vinculá-lo a um sistema religioso. Pois os discípulos de Jesus se sentem chamados por Deus para curar e aliviar o sofrimento e não para assegurar o culto perfeito, o cumprimento do sábado ou a observância das normas de pureza. Jesus vincula Deus à vida. A vida é o principal para Ele, e não o culto; a cura dos enfermos, e não a lei do sábado; a convivência sã e reconciliada, e não as oferendas que cada um pode levar ao altar. Segundo o teólogo Pagola, pode-se dizer que Jesus põe em marcha uma “religião terapêutica”. Jesus anuncia a salvação definitiva introduzindo a saúde agora mesmo. O Evangelho de João põe na boca de Jesus estas palavras: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.

Pe. Fagner Dalbem Mapa, C.Ss.R.


Texto baseado no livro de José Antonio Pagola - Recuperar o Projeto de Jesus

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