O Magnificat de Maria


No Magnificat (Lc 1, 46-55), como diz o teólogo Clodovis Boff,  Maria mostra que Deus é revolucionário, ela proclama a regeneração de todo o universo. Ela declara que o Senhor derruba do trono os poderosos e eleva os humildes. Deus reabilita os humildes e humilhados, restituindo-lhes a dignidade, de acordo com as promessas bíblicas. Maria faz eco ao cântico de Ana: “ O Senhor ergue o fraco da poeira e retira o pobre de sua humilhação, para fazê-lo sentar-se com os príncipes e dar-lhe um lugar de glória. (1Sm 2,8). O Salmo 112 diz quase o mesmo: “Ele levanta do pó o indigente e tira o pobre do lixo, para fazê-lo sentar entre os príncipes, entre os grandes de seu povo” (v 7-8).
A verdadeira e primária exaltação dos humildes é a sua elevação à filiação divina, sua transformação interior, sua divinização. O melhor que Deus faz em favor dos humildes não é pô-los nos tronos, no lugar dos poderosos, mas salvá-los. Porém, a salvação implica e pede uma exaltação social. É na exaltação social, na implantação do Reino já aqui, que nós percebemos a ação de Deus no mundo, e nós somos seus mediadores. Por isso Jesus prega que o Reino de Deus já começou e convoca discípulos para continuarem a sua implantação.
O fato de a mãe do Senhor ser uma mulher pobre revela a dignidade do povo simples que é menosprezado e marginalizado, mas que é o verdadeiro protagonista da história, embora não reconhecido. Maria, a mulher mais digna da Terra não pertencia às classes altas, mas às baixas, a classe considerada indigna, que não é aceita em qualquer espaço. É nessa classe que está a mãe do Salvador. No Magnificat, Maria confessa que foi a sua situação de pequenez que atraiu o olhar misericordioso de Deus. “Deus olhou para uma moça pobre e desprezada. Ele poderia ter escolhido uma moça rica, importante, nobre, ou poderosa rainha. Mas, por pura bondade, olhou para uma moça humilde e desprezada. Assim, como afirma João Paulo II e diversos teólogos, o Magnificat é o manifesto do amor preferencial de Deus pelos pobres. E sempre é assim na história da salvação. Deus frequentemente quebra a lógica humana e surpreende a todos, escolhendo os pequenos, os fracos e os desprezados.
O Magnificat nos mostra que toda luta de libertação deve ser atravessada pelo espírito de louvor e alegria, ainda que a fé e a esperança são postas à prova. Entre as dores do martírio, irrompem sempre os gritos de “aleluia” por causa da presença e das promessas do Todo-Poderoso. Maria canta os grandes feitos de Deus na história, Ele é o herói de tudo, ela é apenas a sua humilde cantora e serva.
É verdade que pouco antes, Isabel a declara “bendita entre as mulheres” e bem aventurada por causa da sua fé. Mas a resposta de Maria é atribuir tudo a Deus: “Ele olhou para a pequenez de sua serva. O Poderoso fez em mim maravilhas”. Esse gesto de Maria mostra que é Deus o grande protagonista da libertação e a Igreja é a sua humilde serva.
A Virgem do Magnificat é uma mulher realista, de olhos abertos sobre o mundo. Sabe que existem poderosos e humildes, ricos e pobres, e sabe também que os poderosos oprimem os humildes, e os ricos exploram os pobres. É uma mulher - como se diria hoje - que tem “consciência crítica”. Ela vê as injustiças e as denúncia. Põe a nu a “verdade social”. Sabe que “só a verdade liberta” (Jo 8,32).  Maria sabe também que a fome do pobre é um problema mais que simplesmente material ou social, é um problema espiritual, moral e teológico. O versículo do Magnificat: “encheu de bens os famintos” é, sem dúvida, indicativo da espiritualidade realista, encarnada. Maria sabe que a revolução divina chegou com a vinda do Messias em seu seio e que o curso da mudança do mundo é irreversível: nada e ninguém poderá detê-lo.

 Pe. Fagner Dalbem Mapa, C.Ss.R.


Baseado no livro de Clodovis Boff, OSM - Mariologia Social


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