Livres para amar


“Para ficarmos livres é que Cristo nos libertou. Sede pois firmes e não vos deixeis  impor de novo o jugo da escravidão” (Gl 5,16). “Por tanto andai segundo o Espírito” (Gl 5,16).

Esse é um trecho da carta de São Paulo aos Gálatas. Para Paulo, o apego à lei escraviza. A lei manifesta a condição de pecado e a fraqueza da carne, sem lhe dar remédio. O apego à lei é outra fonte de dominação e de injustiça, de pecado e de incapacidade. Não liberta o ser humano do seu egoísmo, ou de sua busca de segurança e sobrevivência. Além disso, o apego à lei gera falta de misericórdia. Apegar-se a uma lei é uma forma de se subordinar  a  um sistema de segurança, sem perceber que esse sistema é uma nova forma de idolatria.
Isso não quer dizer que não deva haver nenhuma regra, nenhuma forma de ordem na sociedade, nenhuma lei, organização ou estrutura. Pelo contrário, nada pode funcionar sem organização. Mas o que é necessário dentro de uma organização, é manter-se aberto e disponível para escolher o que há de melhor, sem que isso seja sempre a própria vantagem ou a própria segurança. E quem nos ajuda nessa tarefa é o Espírito Santo.
O Espírito torna a pessoa apta para uma verdadeira opção, conduz a um discernimento que a liberta do egoísmo para poder escolher de acordo com o bem de todos, com o bem do outro. Tal discernimento é para optar por aquilo que realmente edifica. O Espírito substitui todos os sistemas que trazem submissão e segurança pelo discernimento. Em lugar de receberem um sistema pré-fabricado de regras, de normas, de preceitos, de gestos obrigatórios, os cristãos se acham diante da necessidade e do desafio de discernir em todos os momentos da história pessoal e social.
Sobre essa liberdade de escolha, São Paulo diz: “‘Tudo é permitido’, mas nem tudo é proveitoso; ‘tudo é permitido’, mas nem tudo edifica” (1Cor 10,23). O preço da liberdade é a obrigação de escolher e, portanto, de assumir responsabilidades. E o Espírito vem em socorro do discernimento da pessoa humana. Não impõe normas, ele ilumina fazendo a pessoa ter contato com a verdade do Cristo e liberta a pessoa de sua própria segurança e das suas próprias vantagens.
A liberdade não significa que cada um vai dedicar-se a fazer a sua própria vontade a partir de fins individuais. O discípulo fica livre em vista de um serviço livremente aceito: livre para servir ao próximo. O ato da libertação culmina na opção pelo serviço. A pessoa se liberta de si, de suas tendências egoístas: da busca de segurança, de tranquilidade e de sobrevivência. A vontade de sobreviver é tão forte que o ser humano se adapta a qualquer forma de dominação para poder viver e para ter algumas garantias de tranquilidade. O que o Espírito faz é ajudar a pessoa a cada vez mais estar livre dessa tendência escravizante para poder seguir Jesus, que pede aos seus discípulos que renunciem à própria vida e que abracem a cruz, pois quem se apega a sua vida vai perdê-la.
São Paulo acrescenta ao princípio de liberdade o princípio da caridade. Ele escreve em sua carta aos Gálatas: “Fostes chamados, irmãos, à liberdade, não a uma liberdade que dê ocasião à carne; antes escravos uns dos outros pelo amor. Toda a lei se cumpre numa só ordem: Amarás ao próximo como a ti mesmo” (Gl 5,13-14). Já na carta aos Romanos ele escreveu: “Cada um de nós procure agradar ao próximo, em favor do bem para edificação” (Rm 15,2).
Ele fala de edificação, pois o serviço ao próximo não é de modo algum serviço ao egoísmo do próximo, e sim, serviço à construção da comunidade do povo de Deus. O amor deve nos levar a buscar a libertação do próximo. Assim entendemos que a liberdade não é para o indivíduo isolado. A liberdade tem um fim social, o ser humano só se torna livre dentro de um povo livre. Não há liberdade isolada, assim como não há caridade isolada.

Pe. Fagner Dalbem Mapa, C.Ss.R.


Baseado no livro O Espírito no mundo - José Comblin

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