Justiça e fé


Justiça é dar a cada um o que é seu por direito, por isso só é possível praticar a caridade cristã se antes praticamos a justiça. Assim é preciso que os cristãos levem em consideração que Deus quer que os bens deste mundo sejam de todos, ou seja, que todos tenhamos os mesmos direitos independente de mérito pessoal. Portanto a vivência cristã na sua raiz nos ensina que devemos ficar incomodados quando alguns possuem muito e outros não têm o suficiente para uma vida digna. Mas não só ficar incomodados, como também, fazer justiça, que significa defender aqueles que não podem se defender, além de cuidar e proteger os mais pobres, os desvalidos, os fracos.
Por convicção de fé e de justiça cristã é preciso lutar pelo direito de todos. E mesmo que alguém acredite que tenha mais posse, ou que seu vizinho tenha mais bens por caminhos legalizados, a desigualdade social, mesmo que produzida dentro da legalidade, nunca é justa.
As leis deste mundo estão organizadas de tal modo que favorecem descaradamente certos grupos, certos indivíduos, certos povos diante de outros grupos, indivíduos e povos que são desfavorecidos e esmagados. Há pessoas que legalmente ganham dezenas de milhões por mês e recebem auxílios milionários, enquanto outros, legalmente também, ganham um pequeníssimo salário mensal. Pergunto: isso é justo? Legalidade não é sinônimo de justiça.
Se você concorda que não seja justo, você então entende que o cristão não pode viver seu cristianismo, se não se preocupa profundamente com o assunto da justiça e com todas as suas implicações, pois crer é comprometer-se. Isto é, a fé não é só a aceitação teórica de uma série de verdades e nem é a observância de algumas práticas religiosas. A fé cristã é a adesão completa a Jesus Cristo e um comprometimento com o seu projeto, no esforço por fazer o mundo mais humano, mais fraterno e mais solidário.
A justiça é, para Jesus, a solidariedade e a salvação para todos os que sofrem a dor do mundo. Cumprir toda a justiça é solidarizar-se com essas pessoas, a fim de defendê-las dos ataques que padecem. Por isso, Jesus chama bem-aventurados “os que têm fome e sede de justiça”, porque “serão saciados” (Cf. Mt 5,6). Porém, numa sociedade como a que vivemos, na qual constantemente se impõe o interesse dos poderosos, quem opta por ficar ao lado dos que são marginalizados e excluídos da sociedade é punido. Em outras palavras, aquele que defende a justiça, mais cedo ou mais tarde, será perseguido. Por isso, a última bem-aventurança afirma: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do Céu” (Cf. Mt 5,10).
Os que defendem a justiça e lutam pelo direito dos mais fracos mexem com com o atual estado das coisas na sociedade, muda radicalmente o sistema, desfaz a estrutura que privilegia alguns, tira o conforto dos bem situados e satisfeitos que não estão dispostos a dividir o seu espaço com a parte menos favorecida da sociedade. Aquele que pretende mudar o sistema é tido como um indesejável, um sujeito perigoso que deve ser eliminado. Assim aconteceu com os profetas e com Jesus.
Jesus durante toda a sua vida manifestou a sua preferência pelos pobres, pelos pecadores, pelos aleijados e enfermos, pelos pequenos, pelas crianças, pelos marginalizados. Essa preferência de Jesus não se trata de um ato de generosidade simplesmente, trata-se do que se deve fazer para agir com justiça na vida, é uma atitude que revela se a pessoa é honesta e que corresponde a caminhar segundo a Lei do Senhor, segundo a aliança entre Deus e o seu povo. Pois onde não há justiça não há fé em Deus. Onde não há preferência pelos mais pobres e marginalizados, não pode haver relação com Deus. E aqueles que dão de comer ao faminto, de beber ao sedento, os que vestem o desnudo e visitam o doente e o prisioneiro, estão fazendo isso a Jesus em pessoa e, mesmo que nem saibam, estão realizando um ato decisivo de fé.

Pe. Fagner Dalbem Mapa, C.Ss.R.


Texto baseado no livro: Sete palavras - José Maria Castillo.

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